Eu morava em Porto Alegre havia um mês e trabalhava numa cidade da região metropolitana. Pegava dois ônibus para chegar no trabalho: um até o centro de POA e outro até essa cidade. Alguns dias da semana eu tinha que trabalhar mais cedo, então saía mais cedo de casa e após chegar no centro, pegava um segundo ônibus que era direto e levava 30 minutos para chegar na cidadezinha. Eram quase sempre as mesmas pessoas que utilizavam este ônibus, e notei um cara muito bonito que também embarcava.Começamos a trocar olhares, que depois de algumas viagens se tranformaram em um oi muito tímido. A partir daí eu já procurava por ele na fila, em vão, ele sempre me surpreendia chegando quase na hora do ônibus sair. Ele discretamente sentava próximo e quando eu chegava correndo, atrasado, sentava perto dele. Um dia sentamos lado a lado, com o corredor nos separando e começamos a conversar. Ele trabalhava de madrugada, ia pra casa dormir. Feitiço de Áquila, eu pensei, achei meio engraçado e fiquei um pouco decepcionado. Enquanto ele morava nessa cidade e trabalhava à noite em Porto Alegre eu trabalhava o dia inteiro na cidade dele, e só tinha a noite pra descansar. Eu ficava me perguntando como alguém que trabalhava à noite podia estar tão lindo pela manhã.
Um dia sentamos nas últimas poltronas. Poucas pessoas embarcaram. Começamos a conversar, estávamos ansiosos, as poltronas com encosto alto nos escondiam dos outros passageiros. Paramos de falar e nossas mãos se entrelaçaram. Ficamos de mãos dadas o resto daquela viagem de 30 minutos. O meu coração batia tão forte... Desci uma parada antes da dele, como de costume. Fui trabalhar feliz, como um adolescente apaixonado, o que de fato eu ainda era. Mas nunca mais nos encontramos naquele ônibus.